9 de novembro de 2012

o amor mediado


"Ça te dit de faire l'amour sous la neige?"

Ao ler o “Livro do Amor”, da psicanalista Regina Navarro, no qual são apresentadas as modificações nas vivências do sexo e do amor, desde a pré-história até a atualidade, deparo-me, sobretudo a partir do século XIX, com a presença frequente de um ou outro meio técnico de comunicação a mediar as relações amorosas. E da mesma forma como as mentalidades sobre o sentimento amoroso experimentaram mudanças ao longo da história da humanidade, também mudaram os modos de interação dos apaixonados.
A segunda revolução industrial trouxe mudanças práticas, mas também subjectivas para a vida quotidiana. O advento e rápido desenvolvimento dos meios técnicos de comunicação e dos sistemas de transporte foram fatores que interferiram nas formas de expressar o amor, alterando progressivamente os fluxos e dinâmicas dos relacionamentos sociais e também das interações amorosas: com os correios dinamizou-se a troca de mensagens românticas, os encontros marcados, os envios de retratos com dedicatórias, cartas e postais de amor; com a popularização do telefone foi possível levar a voz do ser amado para pertinho do travesseiro (por que não toca o telefone?); o automóvel servia de ninho do amor, “um pecado sobre rodas”; o escurinho das salas de cinema, ambientado pelos beijos, lágrimas e juras de amor eterno do cinema Hollywoodiano, servia de palco para as cálidas carícias dos namorados; hoje, os mais expressivos meios de interação encontram-se nos ambientes virtuais, como e-mails, chats, facebook, twitter, skype, etc. Desde os últimos anos do século XX, muitos foram os casos de amor que começaram, avançaram ou terminaram no ciberespaço. 
O amor é tecnicamente mediado, das longas cartas românticas aos 160 caracteres do SMS. E se as cartas de amor estão vincadas no imaginário romântico do século XIX até meados do século XX (dos filósofos aos generais, das ingénuas jovens burguesas às meretrizes, não há personagem real ou ficcional que não tenha escrito uma – ridícula – carta de amor), no século XXI, a revolução tecnológica digital nos abre novas possibilidades para a vivência amorosa e cria um novo léxico para o amor. 
        
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Carta de Fernando Pessoa à Ophélia:

         Terrivel Bébé

      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .

Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)

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The Kiss, 1896 | Thomas Edison



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