14 de janeiro de 2012

A caixa mágica

Fotógrafo à la minuta em Ponte de Lima

Fotógrafo à la minuta | Lambe-lambe
As inovações técnicas da fotografia, logo no alvorecer da segunda década do século XX, marcam um importante período de expansão da produção de retratos: o momento em que os retratistas saem dos estúdios e ganham as ruas. 
Com o surgimento de câmeras de manuseio cada vez mais simples, o ofício de fotógrafo ganhou novos adeptos, muitos sem grande qualificação profissional, pessoas que se aperfeiçoaram e se afeiçoaram à fotografia e dedicaram a esta prática uma vida inteira.
Entre as décadas de 1920 e 1960, a figura do fotógrafo à la minuta tornou-se habitué nos jardins, parques e feiras urbanas. Com a câmera-laboratório em uma mão e um balde em outra, estes profissionais ambulantes percorriam as cidades montando improvisados palcos ao ar livre para fazer a mágica fotográfica de eternizar  traços e sentimentos que o tempo e a vida se encarregariam de mudar.
Após dirigir a pose dos retratados (que posavam por vezes tendo como pano de fundo um cenário pintado, por influência dos retratos de estúdio), o retratista soltava a celébre frase  “Olha o passarinho!” e depois encarregava-se de revelar e ampliar o retrato. Tudo era feito rapidamente, ali diante dos olhos dos clientes. Através de um pano preto, as mãos dos fotógrafos adentravam a uma "misteriosa" caixa para realizar o ritual secreto de transformar pessoas em imagens em apenas 15 minutos. Em algumas regiões era necessário licença profissional para fixar-se em certos pontos da cidade, mas muitos profissionais preferiam se deslocar, carregando o seu ofício nas costas.
A itinerância do fotógrafo à la minuta é uma herança dos ferrotipistas de meados do século XIX, que se utilizavam de uma técnica fotográfica que possibilitava a produção de retratos em laboratórios ambulantes, a partir do uso de colódio húmido sobre placas de metal. Com um arsenal técnico já mais aprimorado e relativamente simples, o fotógrafo à la minuta fez de uma caixa de madeira produzida artesanalmente a sua câmera-laboratório. Esta caixa,  munida de uma câmera fotográfica, tem em seu interior dois recipientes, de um lado o fixador, de outro o revelador, e na lateral um suporte com o papel fotográfico. Por debaixo dos panos, o fotógrafo mergulha aqui e ali a fotografia, que depois será lavada com a água que leva no balde. É assim que em poucos minutos o cliente tem o seu retrato.
A fotografia à la minuta trouxe os procedimentos inagurais da instantaneidade fotográfica, que teve posterior apogeu com os autômatos, como a Polaroid e Photomaton, máquinas que deflagraram a extinção do retratista à la minuta. Hoje, quase todos estes fotógrafos abandonaram os seus postos nos jardins e parques e não deixaram herdeiros. Os dispositivos fotográficos digitais e a fotografia amadora tomaram de vez o lugar dos fotógrafos à la minuta. São poucos os que ainda fazem parte da paisagem urbana com as suas caixas mágicas e os seus cavalinhos. Na região do Minho, em Portugal, os mais nostálgicos ainda podem ter o seu retrato feito à la minuta no Bom Jesus, no Sameiro e nas proximidades do chafariz perto da ponte em Ponte de Lima.
No Brasil, o fotógrafo à la minuta recebeu a alcunha de lambe-lambe e acabou por desempenhar uma função um pouco diferente, pois ocupou-se, sobretudo, da produção de retratos de identificação. O lambe-lambe foi uma figura muito popular até a década de 1990, e hoje ainda é possível ver um ou outro herói da resistência. A origem do nome lambe-lambe é controversa, diz-se que surgiu do hábito que os fotógrafos tinham de lamber ou marcar com a ponta do indicador ou polegar molhados de saliva a chapa, película ou papel sensível para identificar de qual lado estava a emulsão. Há outra explicação que remete à prática fotográfica da ferrotipia, pois era comum os ferrotipistas lamberem as chapas após a revelação com sulfato de ferro, fazendo a imagem aparecer pela ação do cloreto de sódio da saliva. Tal hábito teria ressurgido entre os então fotógrafos lambe-lambe.    
Se em Portugal, o fotógrafo à la minuta até as décadas de 1950 e 60 disponibilizava cenários pintados em painéis e o imprescindível cavalinho para as crianças, no Brasil o lambe-lambe fornecia a gravata e o terno (fato), endireitava as cabeças e contia os sorrisos para atender às normas de identificação dos documentos oficiais. O que inicialmente era apenas um painel branco diante da câmera-laboratório, logo tornou-se uma cabine onde os retratados entravam, olhavam-se num pequeno espelho, arranjavam o cabelo com um pente ali disponível, vestiam o terno e colocavam-se em posição para a foto. Por vezes, vinha o fotógrafo endireitar-lhes a cabeça, depois sem dizer uma palavra e sem passarinho soltava o clique. Minutos depois, o 3x4 (o retrato tipo-passe do Brasil), estava pronto.
Havia sim o lambe-lambe que atuava mais aos moldes do fotógrafo à la minuta, mas o tipo de lambe-lambe quase maquinal foi o que prevaleceu no Brasil. Tanto que estas cabines foram os nossos Photomatons – isso talvez explique porque este autômato teve pouca expressão no país.
No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, o ofício de lambe-lambe foi reconhecido como bem cultural imaterial. Com isto, pretende-se salvaguardar do esquecimento esta profissão que durante décadas construiu a história visual de pessoas e cidades.

Olha o passarinho!
A frase “Olha o passarinho!” faz parte da história da fotografia e da história de retratistas e alguns retratados. Sim, sou dos tempos do “Olha o passarinho!”. Já hoje o que é que se diz? Acho que com tantos cliques que fazemos já não há tempo para passarinho nenhum. O fato é que fiquei curiosa por saber o porque desta frase, e então com uma breve pesquisa descobri que tem a sua origem nos primeiros tempos da fotografia, ainda quando o tempo de exposição era longo e era preciso prender a atenção dos retratados, sobretudo das crianças. E era assim que  os fotógrafos colocavam uma gaiola com um pássaro ao lado ou acima da câmera. Ainda hoje é comum ouvirmos a frase no momento do click. E daí  vem também a explicação para a presença dos passarinhos artificiais "pousados" nas caixas dos fotógrafos à la minuta.


Referências:
Borges, José (2004) Fotógrafos à la minuta. Lisboa: Livros Horizonte.
Kossoy, Boris (1974) O fotógrafo ambulante - a história da fotografia nas praças de São Paulo. In Suplemento Literário do Jornal O Estado de São Paulo, 24/11/1974, p.05.

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