6 de janeiro de 2012

o dezembro antes dos 30

No último dia 29 de Dezembro eu completei 29 anos de idade. Aos 29 anos, eu estou consideravelmente longe de onde nasci – sobretudo geograficamente. Quando eu penso no caminho que venho percorrendo, lembro-me de duas frases marcantes que num momento decisivo da minha vida fizeram muito sentido. Até mesmo porque era uma fase na qual alguma coisa precisava fazer sentido.
A primeira frase me veio, creio eu, em 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso disse em um discurso que somente a educação seria capaz de mudar o futuro do Brasil. O que seria bom para uma nação, pensei, também deveria ser bom para mim. Não quero discutir o que este ex-presidente fez pela educação do país, mas esta frase caiu sobre mim como um avante: corre Forrest!
Então, a partir daí eu comecei a correr, sem saber onde eu iria parar.
Uns anos depois, em 2000, eu preparava-me para o exame vestibular e meus esforços se dispersavam em meio a  obstáculos que se colocavam no percurso de minha corrida. Neste período, uma pessoa muito próxima a mim, mas que morava a cerca de mil quilômetros de distância, disse-me numa correspondência, via correio postal, na qual respondia a algumas de minhas angústias, para que eu, naquele momento, focasse a minha atenção nos estudos, pois assim eu iria adquirir algo que ninguém poderia me tirar: conhecimento.
E foi o que eu fiz, porque aquilo me parecia mesmo fazer sentido. Naquele ano eu fui aprovada no vestibular da Universidade Federal de Goiás para o curso de Geografia. Não foi uma conquista excepcional, mas com certeza a partir dali eu poderia adquirir aquilo que ninguém poderia me tirar.
Eu continuei correndo.
Durante os anos da Geografia e em meio a leituras e conhecimentos realmente enriquecedores e transformadores, obtive outra conquista, que percebi ser fundamental e que também ninguém poderia me tirar: amigos.
Foi na Geografia que eu aprendi também que as fronteiras não são limites, são na verdade zonas porosas, feitas para serem trespassadas. As fronteiras cruzam os caminhos.
Gostei tanto desta idéia que resolvi cruzar uma fronteira. Tornei-me desertora e mudei de curso. Da Geografia fui para a Comunicação Social.
Continuei correndo. Estudei Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Entre outras coisas, lá eu aprendi a vender talheres a quem não tem nem mesmo o que comer. Mas como antes, nos tempos da Geografia, eu já havia aprendido, com as leituras de Marx, que a fome do homem que come com garfo e faca não é a mesma do homem que come com as mãos, eu desisti de usar a minha retórica para vender prata.
Aprendi também que sorrir não dói. Ganhei mais amigos. Continuei correndo.
Neste novo percurso, percebi que já não bastava apenas adquirir conhecimento, era hora de trocar, de compartilhar, de contribuir. Estudar numa Universidade Federal para mim implicava retribuir, de alguma forma, o investimento que todos os brasileiros fazem na educação quando pagam os seus impostos, mas que poucos recebem de volta. Resolvi cursar um mestrado em Cultura Visual. Mais uma vez, o conceito de fronteira me foi caro. Entendi que a fronteira não é apenas um lugar de transição, é também um não-lugar onde inclusive é possível fixar-se.
Com a minha dissertação de mestrado, eu ampliei a minha visão de mundo. Tanto que me doíam os olhos e a cabeça. Foi uma desconstrução brutal de perspectiva. Eu jamais poderia ver novamente o mundo com os mesmos olhos. O conhecimento tem destas coisas.
Eu quis correr mais.
Durante o mestrado, comecei a lecionar. Lembro-me perfeitamente do frio na barriga que me acompanhou pelos 17 quilômetros que me levavam da minha casa à universidade. Posso sentir até hoje o rubor ardente das minhas bochechas, quando ao final da tarde, eu disse “até a próxima aula” e saí da sala. Até hoje não sei se era alívio por ter terminado ou por ter conseguido chegar ao fim.
Enquanto decorreu o mestrado, eu corria dando aulas e me dividindo entre outras tarefas. Depois do fim do mestrado, eu corri. Voei. Atravessei um oceano.
Estudo atualmente para desenvolver a minha tese de doutorado em Ciências da Comunicação. Estou em Portugal, na Universidade do Minho. Não estou exatamente onde eu sonhei, mas estou mais longe do que eu imaginei que poderia chegar. Já aprendi muito até aqui. Mas ainda há muito mais para aprender, muito para correr. Há tanto que se eu parar para pensar o quanto ainda há, eu estanco.
Afinal, aquele amigo, hoje ainda mais distante, tinha razão. O ex-presidente, nisso, também tinha razão. Nada poderia ter transformado a minha vida, em pouco mais de dez anos, como a educação transformou. Nem dinheiro! Espero que o Brasil ainda tenha tal sorte. É desolador ver que ter acesso à educação de qualidade no nosso país é ainda tão difícil. É ainda um desafio que para vencer não basta correr, há que superar muitos obstáculos. Infelizmente, há quem não tenha pernas, há quem não tenha forças. Quanto a mim, enquanto tiver pernas, vou voar.
E como dizia um reclame qualquer, a minha vida me trouxe até aqui. Tudo de bom e de mau que vivi me fez ser quem eu sou. Eu poderia ser melhor? Certamente. Mas quero seguir pensando que fiz o que pude.
Hoje, estou longe de (quase) todo mundo que amo. Mas estou feliz por estar onde estou, e estou feliz por poder compartilhar a minha vida com vocês. Obrigada!




Aline Soares Lima
Aos 29.
Quase 30. Já!
É, os dias correm, mas os anos... Ah, esses voam!
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