26 de junho de 2013

das lembranças da minha irmã


Sally Illustration 


Naqueles tempos, a minha avó ainda levava a primavera nos seus vestidos floridos e o verão no rouge do rosto. Mas a minha memória de criança só guardou o inverno. 

Sei, de ouvir falar, que ela era muito vívida. Sei também que apesar da vida não lhe sorrir muito, ela sorria. Há quem diga que ela era uma mulher de se admirar: tinha a resistência de um peixe que sobrevive mesmo depois do rio secar, esperando chover novamente. Eu, infelizmente, não me lembro do rio cheio e nem dela nele a nadar. 

Não me lembro dela na cozinha fazendo cocada e nem do frigorífico vermelho. Também não tenho no  meu nariz o cheiro do talco que ela passava no corpo e nem do pó de arroz.

Agora que ela se foi, o meu lamento é de vida. Uma vida que gemia desde 1982. O que ficou na minha memória, à contraluz, foi a imagem da minha avó com uma menina agarrada à mão sumindo no fim da rua, e de um rio que fez curva tentando reter a água durante 30 anos. 


*Em memória da minha avó.



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