13 de julho de 2012

crônica fotográfica | porque quer ir viver para palm springs



Lá estava o troféu. Ora, mas o que era o troféu? A televisão ou o que estava em cima dela? A televisão, certamente. Naquele ano, o aparelho era a grande novidade da família. Assistir ao primeiro filme a cores em casa era um evento que precisava ser registrado para posteridade. No filme, um casal apaixonado vivia um drama porque o rapaz queria partir para trabalhar numa promissora cidade da Califórnia. Com o coração desfeito, a rapariga, em prantos, contava a uma amiga o motivo da separação: porque quer ir viver para Palm Springs!
Foi neste exato instante que as duas mulheres da foto tiraram os olhos do ecrã colorido da televisão para encarar a objetiva (e para onde ia mesmo o rapaz?). O sorriso saiu a preto e pranto, mas não somente por causa do melodrama... A ironia é que apesar da televisão já ser a cores, a câmera fotográfica ainda carregava películas monocromáticas. Até o bibelot da estante lamentou. 

*Peço licença poética para adotar uma margem de erro de 10 anos para esta fotografia :)  


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Sobre as crônicas fotográficas

Às vezes, é comum eu me perder ao olhar alguns retratos fotográficos de anônimos. Fico imaginando o exato momento em que o fio do tempo fez-se um ponto, e que a vida foi congelada e fixada na fotografia... Fico inventando as lembranças das histórias que eu não conheço. Este exercício mental é precisamente inverso ao que fiz quando li um episódio retratado da infância de Philippe Dubois, no trecho citado abaixo e retirado do livro "O ato fotográfico". Enquanto lia a narrativa fotográfica de Dubois, tive de imaginar a cena para, então, congelá-la e criar mentalmente a fotografia, que não estava impressa no livro. Sobre as crônicas fotográficas que aqui escrevo a partir dos retratos de ilustres desconhecidos, o que posso garantir é que só 10% é mentira, os resto é invenção - como  bem diria Manoel de Barros.  

"Eis, muito banalmente, uma historinha, uma lembrança pessoal despertada por uma fotografia. Aos cinco anos, em férias na costa belga, em Oostende, encontrei-me num dia de julho envolvido num desses passatempos de praia rituais organizados para as crianças com o intuito de ocupá-las, ou seja, a fim de fazê-las, de certa maneira, matar o tempo. O concurso não passava de uma trivial corrida a pé sobre o dique: cobrir 300 metros por prêmios irrisórios. Acontece que naquele dia, por acaso, eu liderava com folga a corrida a 25 metros da linha de chegada. No momento em que estava quase vencendo, vejo atrás das barreiras em que ficavam os pais e as famílias, o meu próprio pai, que imagino que estivesse contente e que mira em minha direção a sua máquina fotográfica para a posteridade. Ao ver o aparelho, ao pensar provavelmente que eu seria “preso” pela película, paro de uma vez e fixo o meu pai, que me fixa. Recuperando-se de sua surpresa – mas feita a foto – este cansou-se de berrar para que eu continuasse, para que eu voltasse a correr. De nada adiantou. Eu permaneceria imóvel em meio aos gritos, completamente petrificado – a foto está aí para mostrar. Todos os outros participantes do concurso que haviam ficado para trás, acabariam por desfilar às minhas costas. Nem mesmo atravessaria a linha de chegada (Dubois, 2009, p.163)."

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