20 de março de 2012

Se não me falha a memória... (sobre as memórias digitais)

Outro dia escrevi um post especulando sobre como serão os museus do século XXII. Referia-me, precisamente, aos nossos arquivos digitais e como estes arquivos poderão nos auxiliar na reconstrução de nossas narrativas e representações. Eu estava apontando justamente para a fragilidade das "memórias" digitais. E eis que ontem assisti a uma aula aberta cujo tema era "Memória Colectiva e os Media", e vi-me a refletir novamente sobre este tema. Claro que saí de lá com mais perguntas e reflexões do que precisamente com respostas (e acho isso muito bom, infelizes seríamos nós se tivéssemos respostas para tudo!). 
Memorizar tem a ver com reter, mas nem tudo que está retido na memória é necessariamente utilizado em nosso cotidiano. No entanto, eventualmente, podemos precisar ou querer acordar aquela informação adormecida no leito da memória. 
A nossa memória é construída individualmente, mas também coletivamente a partir de experiências vividas, acontecimentos sociais, narrativas e representações partilhadas culturalmente (no ambiente familiar, na escola, no trabalho, na igreja, entre um grupo de amigos, nos media, etc). 
As memórias são também narradas socialmente, seja numa reunião familiar, em um livro de história ou em um programa de televisão. Assim, temos macro e micro memórias, que podem recontar as nossas últimas férias, a história de uma geração, ou de uma sociedade. E temos também suportes que nos ajudam a ativar as lembranças, como por exemplo, um vídeo ou uma fotografia. 
O tecido que urde a nossa memória, portanto, é um misto de acontecimentos "reais", que são sentidos, percebidos e relatados a partir de diferentes perspectivas e visões de mundo, e de imaginação. Cada vez que as nossas lembranças sobre determinado fato da nossa vida pessoal ou de um acontecimento social são ativadas, o que nos vem à mente é a nossa (re)construção daquele fato, já muitas vezes sobreposto por outros discursos posteriormente (re)produzidos, e por outros saberes e sensações. Mas determinadas narrativas acabam por fixar, em alguma medida, os referenciais da memória. Como por exemplo, as narrativas da história, ou as narrativas dos media - ou aquele vídeo do nosso aniversário de cinco anos, que vai nos ajudar a lembrar de quem estava presente na festa e de como era a moda, e do que se comia, e de como era o cabelo da tia Luísa, etc.
Nesse contexto, as tecnologias digitais são uma externalização e uma extensão da nossa memória. Como são também as pinturas na gruta de Lascaux e como é a escrita. Ou seja, esta ideia de externalização e extensão da memória não surgiu com as avançadas tecnologias digitais. O que acontece é que as tecnologias digitais deslocam, multiplicam e fragmentam as nossas possibilidades de arquivamento e de acesso aos arquivos da memória. Assim, o que muda é que ampliamos sobremaneira a nossa capacidade de produzir e arquivar memórias, ao mesmo tempo em que sintetizamos o espaço para armazená-las.
Ora, e quem é que hoje se preocupa em guardar na memória números de telefone? Temos uma memória específica para isto: a memória do telemóvel. A nossa memória, afinal, se expandiu, ganhou discos externos. Vários. No computador, na pendrive, no MP3/4, na câmera fotográfica, etc. Mas, e o que acontece quando a bateria destes dispositivos acaba? Como acessar as nossas memórias? Qual a vantagem de um giga arquivo digital inacessível? 
Eu sei que isso está um tanto prolixo... vou dar um exemplo para ver se torno essa conversa mais agradável. Eu tenho um amigo que fez um desses roteiros do tipo: visite 15 países em 20 dias. Ele simplesmente não teve tempo para saber nem mesmo aonde estava entrando, qual o nome daquele monumento, daquela catedral, qual era a história daquele lugar, o que tinha de importante ali para ver, para saber, para comer, etc. Ao final da viagem ele tinha cerca de 3 mil fotografias. Só depois de chegar em casa e ver estas fotos todas é que ele descobriu, de fato, (com o auxílio da internet) por onde andou e o que viu. 
Há ainda aqueles casos em que estas centenas de fotografias, ou fragmentos digitalizados da memória, nunca são nem mesmo acessados. E você, quantas vezes viu as 800 fotos da sua última viagem? Como você usa as suas memórias digitais?







4 comentários:

wigvan disse...

Eu penso que a portabilidade da memória também pode nos levar a questionar o papel do intelectual hoje. Antes, o intelectual, ou melhor, o erudito, era quem conseguia se lembrar de livros e ideias - além de passá-los adiantes, em textos, em aulas. Hoje, a memória cabe em um pen drive, não precisamos transcrever livros a próprio pulso (me lembro aqui dos intelectuais da Idade Média, que transcreviam tratados teológicos para as comunidades mais afastadas dos centros culturais...)e nem fazer referências a ensinamentos obtidos dos grandes mestres por meio de cartas - como as de Lucrécio a Lucílio, por exemplo. Enfim... qual é o papel do intelectual (e até falar em "papel" pode soar ultrapassado em um contexto tão permeado pelos novos recursos)em uma época em que a memória, em seu sentido vinculado à erudição, já não é mais de domínio de poucos pode ser uma boa questão a se pensar. Desculpe as divagações. Ótimo texto, como sempre.

Narcisos e Medusas disse...

Pois é Wig, mas o que me instiga nessa discussão é mais do que a capacidade de "memorizar", mas as maneiras de acessar estas memórias. Nós sabemos que tempo nenhum se acumulou tanto conhecimento como do século XX para cá. Hoje podemos arquivar toneladas de páginas de memórias em uma pen, o que não significa que quem leva a pen no bolso, leva as páginas na cabeça, é apenas uma maneira mais fácil de acessar informação...

wigvan disse...

Eu entendi o seu interesse, e me apropriei dele para pensar o meu. Realmente as maneiras de acesso da memória, inclusive das redes sociais que de algum modo nos ajuda a nos fazermos lembrados, é algo importante a se pensar - e que bom que você está fazendo isso! O que eu pensei, a partir do que você disse, é que a problematização desses acessos pode nos levar de volta, daqui a um tempo, a uma autoria (digo "autoria" na falta de uma palavra melhor, que não consegui achar) que vem sendo esquecida nos textos acadêmicos (me refiro aos de Filosofia, mas penso que possa se estender aos outros)que ainda assumem a tarefa de acessar a informação, o que talvez, apesar de importante, não seja mais "necessário".
A propósito, quis dizer ali em cima "passá-los adiante" - é o problema em postar comentários sem revisá-los. =
E, desculpe, eu acho que não estou sabendo me expressar bem hoje.

Narcisos e Medusas disse...

Essas memórias digitais são capazes de tornar os conteúdos reprodutíveis ad aeternum, e por isso mais acessíveis. Para um acadêmico, é mais uma maneira de ter acesso aos textos (livro, xerox ou ebook?), que futuramente podem repercutir na sua produção intelectual. Num universo mais amplo de conhecimentos é mais provável haver eurekas. Mas não sei, será que essa noção de acesso não se refere também a uma compreensão do pensamento, da linguagem e do saber? Não é porque eu tenho um livro em mãos que eu vou entendê-lo ou vou me dedicar o suficiente para entendê-lo. É uma questão que eu pensei a partir do que você pensou do que eu pensei... Mas será que entendi bem? :S
ahahahaha