9 de fevereiro de 2012

o computador e eu: sobre as nossas incompatibilidades tecnológicas


Depois de tantos anos de relacionamento, percebi que nos conhecemos muito mal. Apesar da convivência de mais de oito horas diárias, sei de poucos detalhes sobre a sua vida, sobre o seu eu interior. 
Ultimamente, tenho percebido que você está lento, preguiçoso, cheio de caprichos. O fato é que agora para quase tudo você precisa de um tempo especial. E não adianta forçar, se eu ignoro o seu tempo, você começa a bufar e já não há qualquer possibilidade de diálogo... você se fecha completamente, cruza os braços e me vira as costas. Só me resta respeitar e esperar.
Já que começamos esta conversa, é preciso que você saiba que a sua memória não está nada bem. Você vive tendo lapsos terríveis e isso me deixa muito aborrecida. Talvez esta seja a sua maneira de me dizer que está se sentido sobrecarregado. Mas eu entendo, afinal, você tem sido para mim um objeto de trabalho, de estudo, de lazer, e companheiro para muitos momentos do dia e da noite... Sem falar das viagens forçadas. Acho que isso explicaria também a sua necessidade constante de recarregar a bateria.
Talvez este seu comportamento seja mesmo uma forma de me mostrar que não o agrada o fato de eu não saber detalhes básicos da sua configuração – como, por exemplo, qual é a sua memória RAM ou o seu processador. Realmente, eu não sei. Eu não sei!
Mas eu queria que você soubesse que isso não é descaso. Se eu não sou capaz de saber precisamente qual é a sua versão do Windows é porque eu não devo ter muita sensibilidade tecnológica. Por isso é que nunca parei para pensar que você poderia estar precisando de um bom antivírus. Ou de uma formatação geral. Certo, muitas vezes você me deu sinais sobre isso, mas custava dizer claramente?
Eu sei que fui injusta ao culpá-lo por todas as vezes que as coisas correram mal e os meus arquivos e atualizações tornaram-se irrecuperáveis. Eu assumo, faltou um backup da minha parte! Reconheço também essa minha mania de jogar tudo fora... Eu sempre pensava que você poderia resgatar-me dos meus ímpetos de limpeza e guardar o meu lixo por mais um tempo, nalgum lugar nessa sua caixa preta, pelo menos até eu me dar conta de que aquilo não era exatamente lixo.
Sim, é verdade, eu nunca me interessei em saber das suas potencialidades. Não que você seja um espécime muito evoluído. Verdade seja dita, não é. Ao menos disso eu sei. Mas também não é uma simples máquina de escrever. 
Não sei se ainda há tempo para uma reconciliação. Acho que já estamos demasiadamente desgastados. Talvez seja hora de partirmos para outra. Quem sabe assim eu não descubra e deixe aflorar a minha sensibilidade tecnológica. 


***

#Atualizado em 29 de Abril de 2013
Tempos depois de ter escrito este texto, leio um do Fernando Sabino que é uma graça!


Minha Nova Namorada
Fernando Sabino

Tenho a informar que arquivarei a partir de hoje, espero que para todo o sempre, esta máquina de escrever na qual venho juntando palavras como Deus é servido, desde que me entendo por gente.
Não a mesma, evidentemente. Ao longo de todos estes anos, da velha Remington Rand no escritório de meu pai, passei pela Underwood, a Olympia, a Hermes Baby, a Hermes 3.000, a Smith Corona, a Olivetti, a IBM de bolinha, algumas de mesa, outras portáteis ou semi-portáteis. Todas mecânicas, com exceção desta última, que é elétrica.
Pois agora aqui estou, pronto a me passar para algo mais sério, iniciar uma nova aventura amorosa. Sim, porque segundo me ensinou minha filha, que entende de ambos os assuntos, os computadores e as mulheres têm uma lógica que lhes é própria e que devemos respeitar. Pois vamos ver como esta computa - e nem o palavrão contido em seu nome sugere-me outra coisa senão que se trata de minha nova e casta namorada.
Assim como para o homem tudo se ilumina na presença da mulher amada, para o escritor este invento é uma forma igualmente luminosa de realizar a sua paixão pela palavra escrita. Não é uma simples máquina de escrever, que funciona como intermediária entre o escritor e a escrita, às vezes se tornando um obstáculo para a criação literária. Ao contrário, o computador estabelece uma surpreendente intimidade com o texto do momento mesmo de sua elaboração. Permite emendas, acréscimos, supressões, transposições de frases e parágrafos com uma velocidade milagrosa. Deve ter alguém lá dentro comandando tudo, provavelmente uma mulher, uma japonesinha, na certa. Ela dá instruções, chama nossa atenção se esquecemos de ligar a impressora, conversa com a gente: "Operação incorreta. Tente de novo". E quando dá certo: "Operação executada com êxito". Só falta acrescentar: "Meus parabéns. Eu te amo!"
Escrever, que durante tantos anos constituiu um tormento para mim, passará a ser um caso de amor. Nunca mais olharei sequer para a máquina de escrever. Serei radical: ou entregar-me a este conúbio com o computador, no suave embalo de suas teclas e no luzente sortilégio de suas letras, ou regredir à solidão do celibato, em companhia da austera e rascante pena de pato.
Imagino só a felicidade de Tolstoi, se pudesse ter escrito todo a "Guerra e Paz" com a mesma facilidade com que passei a escrever esta crônica no computador.
Pois então lá vai:
O melhor de um computador está nisso: poder 

torocar uma palavra a vo tade, mudar de idéia sem mudar o papel
        Sem usar o papel. Uma das vantagens do
        computador é poder corrigir tuDO o fimmmm. Nã precisa de-
        caneta
        Máquina de escrever e canheta já eram. Num com puta dor o
        sonho de um escritor se realiza: o da perfeição absoluta de uma
        semntença, graças à facilidade em, mudar palavras, cortar, acrescen
        tar. O sonho do escritor e de toda a humanidade
O SONHO DA HUMANIDADE DE ATINGIR A PERFEIÇÃO
atingir a perfeição
A perfeição que a humanidade sonha em atingir Sonha atingir
        Que o homem sonha alcançar conseguir realizar
Muita gentye fica admirada ao percebner a facilidade com que
Muita gente se admira com a facilidade
        Muitos leitores se admirão com a aparente facilidade com que
escreverei fraes quae perfeitas escrevo sentenças textos quase per-
feitos depois que abandonei troquei a máquina de escrever esta sim
        uma engenhoca de tração animal por esta fabulosa invençção
esta prodigiosa admirável estupenda assombrosa espanto-
sa m,iraculosa, extraordinária maravilhosa até pa-
        rece que os sinônimos fabulosa ocorrem com mais faci-
lidade sem precisar consultar dicionários d sinônimos,
Desde que é mais fácil revisar e editar um texto computado? Compu-
        torizado computadorizado do que escrito a mÁQUINA OU A MÂO
        torna muito
        extremamente difícil impossível parar de revisae-
        editarosuficiente para resultar çuma frase
        legível
        quanto mais uma crônica sobre a nova namoraddaPOISStãa pois
então vai assim meso!!!#@@@***boa x.sorte procês...

Texto extraído do livro "No Fim dá Certo", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 106.





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